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Machu Picchu com a Giovanna: os dois dias que não estavam no plano

Sete dias no Peru com a minha filha. Sem ingresso para Machu Picchu nos dois primeiros dias — e foi nesses dois dias que aconteceu a melhor parte.

Ricardo Esper3 ago 2026 · 6 min de leitura
O enquadramento clássico: a cidadela e o Huayna Picchu

Machu Picchu com a Giovanna: os dois dias que não estavam no plano

Fomos ao Peru em julho, eu e a Giovanna — a Gigi, minha filha de 17 anos. Sete dias, base em Cusco. E o melhor da viagem foi a parte que deu errado.

Eu e a Gigi na Plaza de Armas, diante da catedral de Cusco Cusco, o ponto de partida. Tudo na viagem começa e termina aqui.

O ingresso que não existia

Chegamos em Cusco, dormimos, e no dia seguinte já saímos para Ollantaytambo — a cidade no Vale Sagrado de onde parte o trem. De lá, uma hora e meia de trilho até Aguas Calientes, que também se chama Machu Picchu Pueblo, o vilarejo aos pés do sítio.

O vagão do Machu Picchu Train, ainda vazio O trem para Aguas Calientes.

A Gigi e eu no trem, campo passando pela janela

E aí veio a notícia: não havia ingresso para Machu Picchu nos dois dias seguintes. O acesso é limitado por cota diária, com horário marcado, e quem não comprou com antecedência entra na fila do que sobrar. Nós entramos nessa fila.

Conseguimos para dali a dois dias. O que significava dois dias parados num vilarejo de uma rua só, esperando.

A Gigi numa ladeira de Aguas Calientes, bandeiras do Peru penduradas Aguas Calientes: a rua é essa.

Onde a altitude realmente pega

Vale desfazer uma confusão que eu mesmo levava.

Todo mundo associa Machu Picchu a altitude, e a imagem mental é de gente ofegante entre ruínas. Só que o sítio está a 2.430 metros, e Aguas Calientes, embaixo, a pouco mais de 2.000. Cusco, onde você chega de avião e dorme, está a 3.400.

Ou seja: você sente a altitude na cidade, não na montanha. Descer para Machu Picchu é, literalmente, descer. Quem passa mal costuma passar mal em Cusco, no primeiro dia, antes de ver ruína nenhuma.

Os dois dias

Com dois dias vazios nas mãos, fizemos o que dava.

No primeiro, exploramos o Machu Picchu Pueblo — que é uma cidade que existe inteira em função de uma única coisa, e por isso é meio irreal. Todo mundo ali está de passagem para o mesmo lugar.

A mesma rua ao anoitecer, com o morro ainda aceso pelo sol

No segundo, pegamos uma trilha até a cachoeira do Santuário Natural de Mandor. Seis horas de caminhada, ida e volta, boa parte dela seguindo a linha do trem — inclusive por dentro dos túneis. Você caminha no escuro entre trilhos, com o rio de um lado, e sai do outro lado na mata.

O túnel ferroviário no caminho para Mandor: trilho, brita e a luz no fim O túnel. Não há desvio, não há passarela: você anda na via.

Passarela de madeira sobre a pedra, à beira do rio

A queda d'água do Santuário Natural de Mandor, com três cães deitados na pedra A cachoeira de Mandor, no fim das seis horas. Os cães já estavam lá.

Eu e a Gigi diante da cachoeira de Mandor

Foi o dia mais interessante da viagem inteira, e ele só aconteceu porque o ingresso não estava disponível. Se tivesse dado tudo certo, eu teria visto Machu Picchu e voltado, e não teria essa caminhada para contar.

Fico pensando nisso. Metade das coisas de que a gente se lembra são consequência de um plano que não funcionou.

Machu Picchu

No terceiro dia, subimos.

Machu Picchu: os terraços subindo o morro

Não vou tentar descrever — é o tipo de coisa que já foi descrita bem demais por gente melhor, e toda tentativa a mais só gasta o assunto. Digo apenas que ela sustenta a expectativa, o que é raro para qualquer lugar tão fotografado.

O enquadramento clássico: a cidadela e o Huayna Picchu

Eu e a Gigi com a cidadela inteira atrás

Os picos vistos de dentro das ruínas, sem ninguém no quadro Sem ninguém no quadro — que é como quase nunca dá para ver.

De tarde, trem de volta a Ollantaytambo e de lá a estrada até Cusco.

As montanhas coloridas, e a hora de voltar

No dia seguinte fomos a Vinicunca, a montanha de sete cores.

A Gigi apontando para as faixas de cor do morro

A trilha começa por volta dos 4.600 metros e termina num mirador a 5.200 — a crista de onde sai a foto clássica. A montanha em si é medida a 5.036; o número maior que as agências anunciam é o do mirador, que fica acima dela. Quem sobe, sobe aos 5.200.

Eu já tinha estado nessa faixa — em 2017 fiz o trekking ao acampamento base do Everest, a 5.364 metros — e tinha comigo a ideia boba de que aquilo contava para alguma coisa.

Eu e a Gigi na Vinicunca

Não conta. Altitude não tem memória: ela responde à sua aclimatação daquela semana, não ao seu currículo. E quem sentiu foi a Gigi. Passou mal lá em cima, e nós voltamos.

Voltamos e pronto. Não teve discussão, não teve "mais um pouco". Passei a vida inteira ganhando a vida com a diferença entre risco aceitável e risco teimoso, e a montanha estava ali cobrando exatamente isso, com a minha filha no meio.

O sol do altiplano de frente, com a cara coberta O sol a cinco mil metros não perdoa distração.

Descemos, passamos a tarde fazendo compras em Cusco, e no dia seguinte voltamos ao Brasil.

Nós dois na praça, com a torre do relógio da catedral atrás Última noite em Cusco.

O que eu levo

Já viajei muito com a Giovanna, e sempre a mesma coisa, por caminhos diferentes: o valor não estava no item principal do roteiro.

No Peru não foi Machu Picchu. Foi um túnel de trem escuro numa trilha de seis horas que a gente só fez porque não tinha o que fazer, e foi descer uma montanha antes da hora porque era o certo.

Duas pulseiras tecidas, compradas no caminho

Nada disso estava no plano. É por isso que se viaja.

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