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Escrevo isto de Santo Amaro do Maranhão, com a viagem ainda quente. Ontem de manhã eu e Sabrina fizemos o circuito América, e à noite o último, o noturno. Ainda tem areia no meu tênis e sal na pele, e é justamente por isso que quero registrar agora, antes que vire lembrança arrumada.
A primeira coisa que os Lençóis Maranhenses fazem é desmentir a sua expectativa.
Você chega esperando deserto. As dunas estão lá, brancas, altas, do jeito que você viu na foto. Mas entre elas há água — lagoas de água doce, transparentes, mornas, que você atravessa a pé. Não é miragem, é o oposto de miragem.
Eu cheguei aqui achando que sabia o mecanismo: chove, a água empoça no vale entre as dunas, o sol leva embora. É a explicação que todo mundo repete, e ela está errada — como fui descobrir depois de perguntar.
A água não vem de cima. Vem de baixo.
O que acontece é o seguinte: a chuva, concentrada na primeira metade do ano, é absorvida quase imediatamente pela areia — mais de 90% dela desaparece da superfície em pouco tempo. Só que ela não vai longe. Abaixo do campo de dunas existe uma camada de sedimentos costeiros e fluviais pouco permeáveis, e é ali que a água para. O lençol freático então sobe. Sobe tanto que ultrapassa os pontos mais baixos entre as dunas.
As lagoas não são poças de chuva. São o lençol freático aflorando.

Anoitecendo sobre as lagoas
Gostei mais da versão verdadeira. Você está andando sobre um aquífero que transbordou, e a lagoa em que você entra é o topo dele. Isso quer dizer também que os Lençóis que eu vi esta semana não são os mesmos de janeiro, nem serão os de dezembro. Enchem, duram alguns meses e somem. O lugar existe em versões.
Passei a vida trabalhando com coisas que precisam ser permanentes — sistemas que não podem cair, dados que não podem sumir, controles que precisam valer no ano que vem. Talvez por isso eu tenha achado tão desconcertante ficar diante de uma paisagem cujo único plano é acabar. Não tem redundância. Não tem retenção. Enche e esvazia.
Quase todo mundo entra nos Lençóis por Barreirinhas. É a porta principal, tem mais estrutura, mais pousada, mais agência.
Nós escolhemos Santo Amaro, que é a entrada menor. Menos gente, menos fila, mais estrada de areia até chegar. A troca é clara: você abre mão de conforto e ganha silêncio.
Não é uma escolha para todo mundo, e eu não faria propaganda dela como se fosse. Mas depois de alguns dias aqui, a sensação é de ter entrado pelos fundos e encontrado a casa inteira vazia.

A jardineira, que é como se chega às dunas
Santo Amaro organiza os passeios em circuitos, cada um puxando para um conjunto diferente de lagoas. Fizemos três, e o quarto é hoje à noite.
Emendadas. Foi o primeiro, no período da tarde. O nome vem das lagoas que se encontram, uma na outra, formando um corpo de água contínuo quando o nível está alto. É um passeio que emenda o fim da tarde com o começo da noite — você sobe a duna com sol e desce sem ele.

Contraluz no fim do dia, com as lagoas ao fundo
Betânia. Dia inteiro. Almoço no povoado de Betânia, comida caseira, e o fim é no alto de uma duna esperando o sol cair. É a única refeição de viagem que eu lembro em que ninguém olhou o celular.

Eu e Sabrina no alto da duna, no fim da tarde

Sabrina contra o sol
América. Tem barco no meio do caminho — parte do trajeto é pelo rio. O resto é a pé, e essa é a diferença: sem jardineira, sem chegar em cima da duna de carona. Você sobe com as próprias pernas, e a lagoa no fim vale mais por isso. Foi hoje de manhã.
Noturno. O último, e o melhor dos quatro. Sem luz de cidade em raio nenhum, o céu abre — e não são só estrelas. A Via Láctea aparece inteira, atravessando o céu de um lado ao outro, e a lagoa devolve ela embaixo. Você fica no meio dos dois.
É uma coisa que a gente para de enxergar morando em cidade grande, e depois esquece que existia.
Vale dizer o que sustenta esse passeio, porque não é o céu. É um campo de dunas sem trilha marcada e sem ponto de referência fixo — a areia se move, o desenho de ontem não é o de hoje. À noite, sem luz de cidade em raio nenhum, ele fica idêntico em todas as direções. Ninguém entra ali sozinho.
O que te tira de lá é o guia que conhece o terreno, não a lanterna que você levou. Passei a vida montando defesa para o que pode dar errado, e a lição se repete fora do escritório: o equipamento é a parte fácil, e quase nunca é o que decide. Decide quem conhece o terreno.

A Via Láctea sobre uma das lagoas

E vista do alto de uma duna
Voltamos para a pousada às onze da noite, e o silêncio no caminho de volta era do mesmo tamanho do céu.
Fica a conta que ninguém faz: escuridão virou artigo de luxo. Você paga passagem, encara estrada de areia e sai de madrugada para ver uma coisa que era de graça e universal há cem anos.
Já visitei 74 países. É um número que eu digo com cuidado, porque ele impressiona e não significa quase nada sozinho — dá para atravessar uma fronteira sem nunca sair de dentro de si.
O que faz uma viagem contar, para mim, é ela desmontar alguma certeza. Esta desmontou uma pequena: eu achava que conhecia o Brasil.
E teve o resto, que não é sobre geografia. Foram quatro dias caminhando descalço na areia com a Sabrina, sem pressa e sem sinal de celular na maior parte do tempo. Aos 61 anos, tendo passado boa parte deles cuidando do que pode dar errado, eu recomendo com convicção técnica: lagoa de água doce entre dunas, no fim da tarde, é um controle compensatório excelente.
Escrito em Santo Amaro do Maranhão, setembro de 2026.

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