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Fomos ao Peru em julho, eu e a Giovanna — a Gigi, minha filha de 17 anos. Sete dias, base em Cusco. E o melhor da viagem foi a parte que deu errado.
Cusco, o ponto de partida. Tudo na viagem começa e termina aqui.
Chegamos em Cusco, dormimos, e no dia seguinte já saímos para Ollantaytambo — a cidade no Vale Sagrado de onde parte o trem. De lá, uma hora e meia de trilho até Aguas Calientes, que também se chama Machu Picchu Pueblo, o vilarejo aos pés do sítio.
O trem para Aguas Calientes.

E aí veio a notícia: não havia ingresso para Machu Picchu nos dois dias seguintes. O acesso é limitado por cota diária, com horário marcado, e quem não comprou com antecedência entra na fila do que sobrar. Nós entramos nessa fila.
Conseguimos para dali a dois dias. O que significava dois dias parados num vilarejo de uma rua só, esperando.
Aguas Calientes: a rua é essa.
Vale desfazer uma confusão que eu mesmo levava.
Todo mundo associa Machu Picchu a altitude, e a imagem mental é de gente ofegante entre ruínas. Só que o sítio está a 2.430 metros, e Aguas Calientes, embaixo, a pouco mais de 2.000. Cusco, onde você chega de avião e dorme, está a 3.400.
Ou seja: você sente a altitude na cidade, não na montanha. Descer para Machu Picchu é, literalmente, descer. Quem passa mal costuma passar mal em Cusco, no primeiro dia, antes de ver ruína nenhuma.
Com dois dias vazios nas mãos, fizemos o que dava.
No primeiro, exploramos o Machu Picchu Pueblo — que é uma cidade que existe inteira em função de uma única coisa, e por isso é meio irreal. Todo mundo ali está de passagem para o mesmo lugar.

No segundo, pegamos uma trilha até a cachoeira do Santuário Natural de Mandor. Seis horas de caminhada, ida e volta, boa parte dela seguindo a linha do trem — inclusive por dentro dos túneis. Você caminha no escuro entre trilhos, com o rio de um lado, e sai do outro lado na mata.
O túnel. Não há desvio, não há passarela: você anda na via.

A cachoeira de Mandor, no fim das seis horas. Os cães já estavam lá.

Foi o dia mais interessante da viagem inteira, e ele só aconteceu porque o ingresso não estava disponível. Se tivesse dado tudo certo, eu teria visto Machu Picchu e voltado, e não teria essa caminhada para contar.
Fico pensando nisso. Metade das coisas de que a gente se lembra são consequência de um plano que não funcionou.
No terceiro dia, subimos.

Não vou tentar descrever — é o tipo de coisa que já foi descrita bem demais por gente melhor, e toda tentativa a mais só gasta o assunto. Digo apenas que ela sustenta a expectativa, o que é raro para qualquer lugar tão fotografado.


Sem ninguém no quadro — que é como quase nunca dá para ver.
De tarde, trem de volta a Ollantaytambo e de lá a estrada até Cusco.
No dia seguinte fomos a Vinicunca, a montanha de sete cores.

A trilha começa por volta dos 4.600 metros e termina num mirador a 5.200 — a crista de onde sai a foto clássica. A montanha em si é medida a 5.036; o número maior que as agências anunciam é o do mirador, que fica acima dela. Quem sobe, sobe aos 5.200.
Eu já tinha estado nessa faixa — em 2017 fiz o trekking ao acampamento base do Everest, a 5.364 metros — e tinha comigo a ideia boba de que aquilo contava para alguma coisa.

Não conta. Altitude não tem memória: ela responde à sua aclimatação daquela semana, não ao seu currículo. E quem sentiu foi a Gigi. Passou mal lá em cima, e nós voltamos.
Voltamos e pronto. Não teve discussão, não teve "mais um pouco". Passei a vida inteira ganhando a vida com a diferença entre risco aceitável e risco teimoso, e a montanha estava ali cobrando exatamente isso, com a minha filha no meio.
O sol a cinco mil metros não perdoa distração.
Descemos, passamos a tarde fazendo compras em Cusco, e no dia seguinte voltamos ao Brasil.
Última noite em Cusco.
Já viajei muito com a Giovanna, e sempre a mesma coisa, por caminhos diferentes: o valor não estava no item principal do roteiro.
No Peru não foi Machu Picchu. Foi um túnel de trem escuro numa trilha de seis horas que a gente só fez porque não tinha o que fazer, e foi descer uma montanha antes da hora porque era o certo.

Nada disso estava no plano. É por isso que se viaja.

Quatro circuitos nos Lençóis Maranhenses pela entrada de Santo Amaro. A água entre as dunas que não é chuva empoçada, e um céu de estrelas que virou artigo de luxo.

Levar minha filha Giovanna para um programa de intercâmbio em Shenzhen foi muito mais que uma viagem de negócios. Foi descobrir uma cidade linda, comidas exóticas e momentos preciosos longe da rotina de São Paulo.
Guia essencial de segurança operacional para proteger seus dados e privacidade durante viagens internacionais e domésticas.