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cybersecurity

Passkey quebra pelo telefonema, não pela criptografia

Microsoft documentou, desde maio de 2026, uma campanha ativa que sequestra contas na nuvem sem quebrar a criptografia da passkey: um telefonema de falso suporte técnico convence a vítima a aprovar um segundo fator fraudulento. O que isso revela sobre a diferença entre blindar o login e blindar o cadastro, e cinco perguntas para auditar o processo de recuperação de passkey na sua organização.

Ricardo Esper26 set 2026 · 4 min de leitura

Passkey existe para resolver um problema específico: eliminar o segredo compartilhável. Numa senha, o mesmo valor mora no seu cérebro e no banco de dados do serviço — e é esse valor duplicado que todo golpe de phishing rouba. Numa passkey, a chave privada nunca sai do dispositivo. Não há nada para copiar numa página falsa, porque não existe segredo em trânsito.

Por isso o mercado vende passkey como "resistente a phishing". A parte técnica dessa frase está certa. O problema é que ela descreve só metade do ciclo de vida da credencial.

O que a Microsoft documentou

Em 9 de setembro, a Microsoft publicou os detalhes de uma campanha ativa desde maio de 2026, atribuída a clusters de ameaça rastreados como Storm-3121 e Storm-3032. O método não tenta quebrar passkey nenhuma.

O ataque liga ou manda mensagem para o telefone pessoal da vítima — não o corporativo —, alegando ser o suporte de TI da própria organização. A urgência é sempre a mesma: "sua passkey, MFA ou configuração de SSO precisa ser atualizada agora, ou você perde acesso." A vítima é redirecionada, por SMS, para uma página que imita o login da Microsoft.

Ali, ninguém pede a chave privada — porque pedir não adiantaria nada. O que se pede é a aprovação de um cadastro novo: um segundo fator, uma sessão, um passo de recuperação. A vítima não entrega credencial. Ela autoriza o invasor a se tornar um segundo dono legítimo da conta.

Depois disso, o padrão observado é login incomum, seguido de método de autenticação adicionado pelo próprio invasor, volume alto de chamadas à Microsoft Graph API, download de arquivos do SharePoint e OneDrive, e coleta de e-mail via REST API. Tudo isso com credencial que o sistema considera válida — porque, tecnicamente, é.

O ponto cego tem nome: cadastro e recuperação

Toda passkey nasce de uma pergunta que a criptografia não responde: como o sistema sabe que é você pedindo a chave, na primeira vez? Esse é o problema de bootstrapping, e a maioria das implementações resolve com o mesmo mecanismo fraco que a passkey deveria substituir — telefone, e-mail, ou um agente de suporte convencido por uma boa história.

A recuperação tem o mesmo defeito, de trás para frente. Uma conta com passkey, mas com fallback de SMS ou código por e-mail ainda ativo, não é uma conta protegida por passkey. É uma conta protegida pelo elo mais fraco do fallback — e o invasor escolhe qual elo puxar.

A regra é simples de enunciar e rara de cumprir: o caminho de recuperação precisa ser tão resistente a phishing quanto o login principal. Uma porta da frente blindada com uma porta dos fundos de SMS continua sendo uma casa com uma porta de vidro. Só mudou qual porta o ladrão usa.

Cinco perguntas para fazer antes que alguém ligue

  1. Cadastrar uma passkey nova exige aprovação de um segundo fator já existente, ou basta responder a um SMS?
  2. Existe fallback de SMS ou e-mail ativo em alguma conta que já tem passkey? Se existe, a passkey não está protegendo nada — está coexistindo com a vulnerabilidade.
  3. O helpdesk tem instrução escrita de nunca aceitar pedido de atualização de autenticação por ligação recebida — só callback para um número já cadastrado?
  4. A criação de um novo método de autenticação dispara alerta de alto risco, ou é só mais uma linha de log entre milhares?
  5. Quantas contas privilegiadas têm um segundo dispositivo com passkey própria, para que perder um aparelho seja rotina de suporte, não uma porta de recuperação aberta?

Se a resposta a qualquer uma for "não sei", isso é o achado. Não precisa esperar o telefonema para descobrir.

O que isso tem a ver com governança

A ISO/IEC 27001:2022 trata disso no Anexo A.8.5, Autenticação Segura — e o controle já cobre entidade não humana e login sem senha, não só o campo de senha clássico. Mas nenhuma cláusula resolve isso sozinha se o cadastro do segundo fator não for auditado com o mesmo rigor que o login.

Passkey é controle técnico. Ele tira do usuário a decisão de "esse site é mesmo o Microsoft?" — decisão que, historicamente, humano erra sob pressão. Mas o cadastro e a recuperação reintroduzem exatamente essa decisão, num momento em que ninguém está olhando com a mesma atenção porque "já resolvemos isso com passkey".

Controle que depende de disciplina humana contínua não é controle. E um controle técnico com uma porta de emergência que ainda depende dela também não é.

Fontes: Microsoft Security Blog · The Hacker News · ISO 27001 Annex A.8.5

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